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8 de nov. de 2011

ULISES A ESPERA DE PENÉLOPE - RETOCADO

Ulisses à espera de Penélope:
Ulisses, como todos os rapazes de S. Vicente, tem os olhos voltados para a baía do Porto Grande. Deslumbra-se com os vapores da Blue Star e da Mala Real ancorados na baía da velha cratera em semicírculo, enxerga também Monte Cara, a secular bela montanha, contemplando nuvens passando, feito poeta em silêncio…
Ulisses tem sonhos. Idealiza a distante Argentina, nas Américas, e, um belo dia, enchendo-se de coragem, vai ter com António Cara Linda, abastado negociante de barcos, um velho amigo da sua família.
Tirando o boné em sinal de respeito, entra no enorme armazém de Cara Linda, armazém de mil cheiros, repleto de miríades de cordas, tintas e montes de objectos marítimos desconhecidos. No fundo do gigantesco armazém, António Cara Linda está sentado numa velha cadeira americana de vai-e-vem, à moda dos cowboys. Tem as pernas estendidas sobre uma imponente mesa de mogno repleta de papéis cheirando a velho. Está lendo um jornal desportivo.
Após cumprimentar o negociante, sem rodeios, o jovem aventureiro vai directamente ao assunto. Expressando-se de forma clara, promete a António Cara Linda, jurando por Deus, que ele, Ulisses, irá trabalhar arduamente na terra das pampas e um dia devolver-lhe-á o empréstimo para a viagem à terra das infinitas vacas e de um intelectual, um tal de Jorge Luís Borges, poeta cego de quem, por mera coincidência, lera meses atrás um poema num almanaque brasileiro na biblioteca da Câmara Municipal. Cara Linda, homem bondoso, antigo emigrante que após trinta anos de dura labuta no mundo tinha regressado endinheirado à cidade do Mindelo, compreendeu perfeitamente o direito de sonhar do rapaz. Foi generoso…
Anos mais tarde, depois de muitas vicissitudes, bem na vida, Ulisses é o mulato mais desejado em Doc Sur, Buenos Aires. Baila Tango melhor do que ninguém, trabalha com primor e tem amealhado em pouco tempo uma considerável fortuna vendendo charutos de contrabando. Visita frequentemente alcovas e bordéis das belas senhoritas portenhas, sem nunca esquecer Penélope, sua mulata, a mais bela de todas na ilha, imagem que carrega religiosamente numa foto guardada na sua carteira de couro genuíno…
Após uma longa troca epistolar com a sua Penélope que dura cinco anos e cinco meses, resolve pedir aos pais da donzela a sua mão. Grande é a alegria de Ulisses, quando recebe a desejada epístola com a bênção dos progenitores da amada.
Através de um procurador na ilha, com rígidas instruções, dadas por Ulisses ao burocrata, são regrados papéis, na estúpida burocracia colonial, meses depois, é marcado a data do casamento, por procuração, devido à ausência do noivo Ulisses, emigrado na distante Argentina.
Naquele dia, a cidade do Mindelo, brilhava!... Contam os mais velhos, que, até hoje, Penélope, é sem dúvida, a mais linda de todas as noivas, que subiram ao altar da igreja paroquial…. Fora levada à ara, pelo excelentíssimo, Sr. Doutor juiz, Manuel da Cunha Sacramento Pais Ferreira da Silva, padrinho do enlace, por ordens do mulato Ulisses.
Célebre, foi também, a festa do enlace, com centenas de convidados distintos, na sala de Nhô Jom Tolentino, no bairro Monte, onde tudo era, foguetes, tambores, toneladas de Cachupa, e outros manjares, festa rija, que durou, cinco dias e cinco noites.
Findada, a euforia, e a tremenda ressaca da festança, tudo regressa ao normal, duas semanas mais tarde, Penélope, aproveitando um barco de passageiros, que vai para as Américas, embarca para Buenos Aires, numa noite de Fevereiro… Noite fria e cortante, de um breu medonho, típico das longas noites nos trópicos. Do céu, tomba uma maldita cacimba, que chicoteia sem piedade, as costas dos remadores, semi-nus, que remam num dos botes, de Cara Linda, que transporta e leva a bela Penélope para o vapor inglês da Mala Real, ancorado na baía semicircular, no belo Porto Grande de São Vicente.
Triste, com o coração apertado, de saudades da ilha e da família, embarca no Esperanza, navio com pavilhão inglês, que ruma: Primeiro, ao porto de Santos no Brasil, logo a capital argentina: Buenos Aires.
Num ambíguo sentimento, de curiosidade e saudade, Penélope, deixa os pais afogados em lágrimas, no cais da alfândega acenando à sua bela princesa, com lanternas, que reluzem como pirilampos, no forte piche nocturno, no velho cais de madeira, com suas gruas feito falos, fornicando as estrelas.
É hora di bai… pensa Penélope, lembrando por momentos, a bela morna do poeta Eugénio Tavares, melodia que a embala, num transe cadenciado, cadenciado pelo chapinhar dos remos do bote, entrando e saindo, compassadamente, do mar salgado…
Com o paquete cortando o mar negro, e profundo, das ilhas, mal disposta, enjoada, num esforço titânico, lá consegue dormir e, só, no segundo dia, logra sair da sua cabine, depois de ter vomitado as tripas coração, e não ter mais lágrimas, para derramar, de tanta saudade. Com as pernas tremendo, dirige-se ao salão da nave, agarrando nos corrimões do barco, e, ao entrar, girando a cabeça de forma tímida, para controlar, depara com um passageiro cabo-verdiano, um belo homem, com quem, várias vezes, cruzara olhares, na pequena Praça Nova, no seu Mindelo já longe.
O cavalheiro que é um peralta de paletó branco e sapatos a duas cores, que brilhavam impecavelmente, ao avistar, a formosa mulata Penélope, levanta-se do seu lugar e, com elegância, convida-a, de forma cordial, para a sua mesa, ficam os dois, longe dos outros passageiros… O salão pintado de branco, é amplo, é tipicamente inglês, e está decorado, com um enorme quadro, pintado por um pintor, medíocre, com motivos de uma caçada, onde, homens, cavalos e vários sabujos raivosos, mostrando dentes afiados, perseguem uma raposa, numa floresta, deprimentemente escura.
O nosso cavalheiro peralta, que não para de fazer elogios a Penélope, tem o cabelo crespo, mas alisado com brilhantina, à moda de Carlos Gardel, um bigodinho perfeitamente simétrico, ele é, um elegante pesca mulheres, com seu ar de sedutor afro-latino, conhecido aventureiro, que mora, em Salvador da Baía que regressa à terra do candomblé, e das mil igrejas, (teve que fugir da policia Brasileira) após umas longas férias, no arquipélago, onde nasceu.
Penélope deslumbrada com a elegância e beleza do homem, não resiste, de seguida, apaixona-se, e, no quinto dia, de navegação, é seduzida, de forma admirável, com gestos graciosos, e palavras refinadas, do belo cavalheiro. Encanta-se com as bonitas palavras e declarações de amor, do cavalheiro, articuladas com seduzo, no seu belo cantado português, do Brasil.
Entrega-se sem pudor, nos braços do elegante Dom Juan, e é, desflorada com mestria, por, António Cabo-Verde, malandro, proxeneta, conhecido em todas as esquinas de Salvador da Baía… Amam-se até à exaustão, perante uma suposta indiferença da tripulação e passageiros, que fingem nada ver. Assim é a vida!...Foi coisa do destino!... Penélope, nunca chegará à Buenos Aires. Ulisses espera, espera, cansado de esperar, derrotado pela fatalidade, louco de dor, perde a noção do tempo, a sua vida degrada, o seu mundo desaba num piscar de olhos…Todo contente, sentindo-se o homem mais feliz da terra, na véspera em que o barco aproa, vai a agencia do barco, onde é conhecido dos empregados, pergunta a um portenho que bate numa maquina, a hora da chegada do navio, como é generoso, aproveita para distribuir duas caixas com charutos Cubanos de contrabando, aos funcionários, que cinicamente, fingem, não saber, que a sua Penélope, nunca mais, há de chegar, a Buenos Aires. Na agência, tinham recebido, um telefonema do capitão do barco, dês de Santos, anunciando, o desaparecimento de Penélope… Em Santos, ela descera, com um senhor, passageiro do navio, e, até a saída do barco, ela não regressou. O comandante do navio, tinha comunicado as autoridades brasileiras, o desaparecimento da senhora, mas, nem fumo, nem mandado, o barco segui a sua rota. Ulisses, inocente, todo contente, vai deitar cedo, sabe que, amanhã, será o dia, mais feliz da sua vida. No seu apartamento, num bairro luxuoso da cidade, saboreia um excelente vinho de Mendoza, escuta tangos no seu rádio, come crouriço espanhol com pão de cevada, passado momentos, lava os dentes, fecha o rádio, e vai deitar… Num sono inquieto, sonha com Penélope, raptado por um dragão, mas ele, feito herói, com lança e espada, mata o monstro depois de uma luta titânica… Acorda todo suado, é dia, o sol entra nas venezianas das janelas, vai a cozinha beber um copo de água, de repente, tem um pensamento aziago, sacode a cabeça, afasta os maus espíritos, vai ao banheiro, toma um longo duche, veste o seu melhor paletó a três peças, bebe um café do Brasil, bem forte, poisa a chávena na mesa da cozinha, e de seguida, vai apanhar o seu carro, que comprou novinho em folha, um Buick americano, ultimo modelo na praça.Guiando na direcção do porto, contente vai cantarolando, ele, é, o homem mais feliz deste mundo. Estaciona a bela maquina, na entrada do porto, dá a um vagabundo, uma generosa esmola, como é conhecido, dos guardas da alfandega, entra cumprimentando com alegria no rosto…observa o barco, acompanhado de um rebocador atracando, enxerga toda a manobra com emoção, vê o barco cada vês mais perto do molhe, os passageiros no convés acenando, mas estranha, não ver, a sua esposa, ele pensa: – Coitada!... Ela deve sofrer de mal de mar, deve estar a recompor-se, da longa viagem. – O tempo vai passando, todos os passageiros já desceram na escada de passadiço, menos, a sua querida Penélope. Inquieto, pede licença, ao imediato do navio, para entrar, sobe para o convés do barco a passos largos, pergunta ao homem, pela sua esposa, passageira que vinha de São Vicente de Cabo-Verde. Atrapalhado em palavras, o imediato pede a Ulisses que espere um momento, o capitão, tem notícias para lhe dar. Com o coração quase a rebentar, Ulisses espera, são, os minutos mais longos, da sua vida. O capitão, sem jeito, todo atrapalhado, dando voltas no seu boné, estende a mão a Ulisses, minutos depois, meio gaguejando, dá-lhe, a trágica noticia, é o fim!...
Hoje, Ulisses, o galã, é um velho andrajoso, com uma barba enorme, cabelos sujos desgrenhados, feito punhais, prontos a espetar-lhe, no seu pobre coração, destroçado…Tudo desmoronou!... Com a malvada noticia, Ulisses perde o norte e, como guiado pelo demónio, naquele dia, entra no primeiro bordel que encontra, escolhe a rameira mais feia do lupanário, bebe com ela até a exaustão, gasta dinheiro sem atenção, dias depois, perde o carro num jogo de póquer, vende o apartamento, para de trabalhar, em menos de um ano, está na miséria total… Feito um trapo humano, um pária fedorento, é desprezado, e rechaçado, por pessoas, que outrora, diziam ser, seus melhores amigos… Passa ano, entra ano, vive de esmolas, apanha beatas de cigarros no chão para fumar, louco de tristeza, uma tristeza maior do que o mundo nas suas costas, todos os dias, na boquinha da noite, religiosamente vai sentar horas sem fim, no cais número 7 em Doc Sur Buenos Aires, acompanhado do seu fiel cão, Argos. Olha para nenhures no vazio dos seus olhos, e, sem mexer as pálpebras, a sua frente, é o imenso mar… Dizem, que está a espera do fantasma, da sua amada perdida, que nunca chegou aos seus braços.
Tchalê Figueira

23 de out. de 2009

RUA DE PRAIA SÃO VICENTE

A minha rua da Praia universidade do mundo tem marinheiros e pescadores, tem malandros que furam o dia a dia na sua vida de pobretariados… Peixeiras que cantam com vozes fortes e afinadas anunciando Cavala fresque pela cidade do Mindelo. Ficaram imortalizadas pelo compositor Vasco Martins na sua peça por clarinete e orquestra sinfónica “Quatro vozes na Cidade” que tive o privilegio de escutar em Coimbra, executada pela orquestra do Centro Norte, e, o maestro, no meio do concerto lembro ter feito um parêntesis nada usual: Dizendo que “Quatro vozes na cidade” é pura musica, em todos os cantos do Mundo…
Mas hoje!... Nada disso vou falar: Hoje, vou vos falar da rua da Praia, que num poema, escrevi assim: Rua da Praia! Tão perto do mar, tão longe de Deus!...
– Na Ponta de Praia, em Mindelo S Vicente, existem alcunhas inimagináveis – Costela, esta figura modelo das minhas pinturas que fala a língua de Ulisses com pronúncia de Creta, e viajou em todos os mares e bordéis do mundo. Quando mergulha em cálices de grogue barato, delirando conta as suas façanhas, com a mais profunda nostalgia… Fudinha… é um gajo… por ser meia garrafa em tamanho, ganhou o epíteto… Quando embebeda a sua miséria no grogue de pilha, torna-se num batoteiro compulsivo; e, com o seu baralho de cartas seboso, desafia o diabo para uma partida de sete e meio. Fusco, afirma convicto, que até a belzebu consegue bater na batota… Temos também Caxinha, este bravo rapaz que nunca amua com esta alcunha… em crioulo de S. Vicente: Vagina… Sim meu leitor, leu bem a palavra; por ter uma boca enorme, e os lábios excessivamente grossos, eis o porque do epíteto, do rapaz mais prestável da Ponta de Praia…
Alice! Meu Deus!... A Alice que eu conheço, não tem nada a ver, com “Alice no País das Maravilhas de Louis Carol”!... A Alice que eu conheço, é uma ladra coerciva, capaz de roubar as cuecas furadas dos pescadores com quem dorme, furtar peixe no pelourinho, vender vasos com flores que surripia em jardins públicos … Alice é fogo!... Há dias, esteve com dois Tugas… Conheceu-os, não se sabe como, e nem donde… Foi Gentilmente convidada pelos lusos para beber um copo num botequim… num fechar de olhos, desaparece o celular de um dos Portugas… A vitima, rapidamente pede emprestado ao seu colega o seu telemóvel, liga para o número do aparelho sumido… Alice impassível, faz de conta que tudo está no seu lugar, mas de repente, começa aos saltos, que nem canguru australiano… Caramba! Tinha o celular enfiado na cueca… O telemóvel vibrando, logo tocando… Alice empeça aos pulos e, que nem louca grita: Credo! Cristo!... Que vem a ser isto!!!... – A situação é surrealista, o português, sem pensar, mete uma das mãos na cueca da Alice, e saca o aparelho nos lados da púbis da ladra… Regem-se estrondosas gargalhadas no Café… Pergunto: Será que o celular, foi posteriormente desinfectado?...)
Não posso olvidar, Nhela barbeiro… Não é o barbeiro de Sevilha da famosa ópera italiana, mas é barbeiro na barbearia Benfica, propriedade do Senhor Albertino, um Benfiquista ferrenho, que pendurou numa das parede do local, este aviso aos caloteiros: “FIADO É COISA DO DIABO, AQUI NÃO É O INFERNO”… Nhela, que certamente não conhece Rossini, nem os tenores que cantam Unna a la Volta… é um Barbbieri di qualitá… As lindas crioulas que passam a caminho do mercado de peixe, gostam de sentar na sua velha cadeira giratória… Nhela, com muita arte, retoca as sobrancelhas das damas… Dizem que é um perito na arte de rapar… saberá o diabo!...
Nha Maria?... Nha Maria! - Nha Maria na sua pequena loja tem tudo!... Tem todas as fragrâncias exóticas do arquipélago!... Tem peixe seco do Tarrafal de Monte Trigo, rosmaninho dos cabeços de S. Antão, um bom defumador para afastar os maus espíritos, arruda contra a diarreia, grogue da melhor cana, bálsamo consolador das nossas dificuldades, palavras do saudoso Manuel de Novas, poeta que imortalizou Ponta de Praia numa morna em homenagem a Escacareques, boémio que vi beber na minha juventude baldes de aguardente e, quando fusco, agarrava o traseiro das senhoras dos colonos portugueses… Ficava todo contente ao ser preso pela policia colonial, porque na cadeia, dizia ele, ao menos havia Cathupa, para preso comer…
O bar Boaventura?... Obviamente que não posso esquecer um local com este nome. Esta Boaventura que tanta falta faz aos Pobretariados da Ponta de Praia e, … Bem aventurados os filhos da… Bem aventuradas as rameiras na esquina do Boca de Tubarão, bem-aventuradas as crianças analfabetas, os vagabundos que dormem na cacimba secular nos botes decrépitos e fétidos da Praia de Bote… a eles pertence, o reino da miséria … Bem aventurados aqueles que conheci, e já foram desta para a melhor: Toi Boca, Kapaka, Adriano Charão… e, o episódio bizarro destes três mosqueteiros: Anos atrás entraram na igreja paroquial… Bêbados, interromperam a missa e, dirigindo-se ao padre, perguntaram: “Adé Nho Padre!… O senhor está falando com Deus?... Olha!... Diga-lhe, que ponha o pé de volta, ao nosso companheiro Néné, que foi atropelado por um camião...
- Na igreja paroquial, naquele domingo, foi o diabo! Armou-se um banzé, veio a bófia, e os mosqueteiros foram presos, e espancados brutalmente pela polícia colonial. Graças ao piedoso cura que foi exigir a liberdade dos rapazes, foram soltos horas depois, mas contaram-me, que naquele dia, ao saírem do xelindró, tinham as costas, mais mole do que a barriga, de tanto comer paulada dos agentes...
Termino esta pequena navegação pela Ponta de Praia, enviando Mantenha a dona Djina peixeira, a Fernanda, com os seus enormes olhos de amêndoa, ao “Homem” com o seu olho furado a Luís de Camões, ao Frank Dina, ao ILDO Tinta, que inspirou-me na escrita da novela “Ptolomeu Rodrigues e a sua Viagem de Circum-navegação,” a dona Custodia do bar Carinhoso, Ministra dos assuntos dos pobres, e alimentou durante anos sem fim, todos os párias e loucos desta cidade. Aonde quer que estejam, na glória ou no inferno: Nho Damata, homem sem papas na língua, Rola Cueca, e Paizim, os velhos marinheiros que recusaram navegar com motor de popa e foram os últimos navegadores a vela da Ponta de Praia. Nho Rei o corajoso, que desafiou as autoridades coloniais e foi deportado para ilha do Sal por ter dado uma tareia num capitão dos portos déspota… Com um outro deportado, lograram regressar a São Vicente num bote a remos, numa aventura digna de Ulisses…
Na minha rua da Praia, tão perto do mar, tão longe de Deus, um abraço solidário e fraternal, a todos aqueles que há séculos sem fim, esperam em vão, promessas.

1 de out. de 2009

AMOR

Quando Salomão Levy recebeu o aziago telegrama anunciando a morte do pai, soube de seguida que tinha que abandonar a sua amante a baronesa dona Filipa de Ferreira, as óperas no teatro D. Carlos que tanto adorava, e as farras em Lisboa, naquele tempo turbulento. Apreensivo, (talvez pensando na herança) teve que embarcar no primeiro paquete da companhia colonial pronto a cumprir o seu destino. Numa manhã de um dia chuvoso e triste de um mês de Dezembro, bem cedo, o vapor zarpou do cais de Sodré, rumo à sua ilha natal São Vicente, onde lhe esperava grandes responsabilidades. Sendo filho primogénito, e irmão de mais cinco irmãs, que também viviam naquele tempo, à grande e à francesa na capital lusitana à custa do pai Isack Levy, próspero comerciante na cidade do Mindelo, que, ao chegar a casa depois de um bom negócio, despejava o conteúdo dos bolsos das calças e da jaqueta… – libras esterlinas em ouro, que atirava para a cama, com colchas da ilha da Madeira e, em alto e bom som, gritar: Mulher!... Hoje!... Foi um dia e pêras…

- Após dez dias de viagem, comendo sopa no enfadonho e lento barco a vapor – o tempo cura todos os males – Salomão Levy sentiu-se conformado com a decessa do progenitor, e, numa manhã quente de Dezembro nos trópicos, avistou o ilhéu dos pássaros, com a sua forma cónica de falo em erecção, sentiu saudades do sexo cheiroso da baronesa dona Filipa de Ferreira…

Desembarcou do vapor ancorado na bela baía do Porto Grande, descendo por uma escada de quebra costa. Ágil que nem gato, saltou para dentro de um dos vários escaleres da família que viera espera-lo por ordem da senhora sua mãe; um belo escaler de seis remos tripulado por fortes remadores negros e mulatos, todos empregados da firma Levy. Remando com aparente alegria, com a vinda do jovem patrão, num diabo esfrega um olho, chapinhando e puxando com perícia os longos remos, vinte minutos depois, fizeram uma agradável atracação no Cais da Alfandega.
Com as pernas todavia sentindo os balanços do mar, chegou a enorme casa colonial da família a cem metros do cais, e deparou com um conjunto de senhoras trajadas rigorosamente de preto do bico dos pés à cabeça, atónito pensou para os seu botões, que a tradição em nada mudara na ilha. Caramba! Até os brincos das pranteadeiras, estavam forrados de preto.
Reconheceu algumas das carpideira que foram jovens mulheres na sua infância antes de abandonar Mindelo, agora, velhas, com rugas no rosto da sua miséria, com o aspecto de velhos corvos agoirentos. Era mais que certo, que tinham sido contratadas pela senhora sua mãe, para uma recepção teatral de falsas lágrimas.
Salomão nota que as carpideiras estão todas cheias de grogue na testa, tentam ensaiar um carpido, são autoritariamente postas no largo da rua pelo novo patrão que, determinadamente, fala nestes termos a senhora sua mãe: “Senhora minha mãe!... O senhor meu pai morreu, sou doravante, o senhor desta casa. Choramingas não trarão de volta o senhor meu pai… Todos sentimos com profunda magoa a sua morte, mas a vida continua minha senhora! … Gostaria… gostaria, exactamente de saber, como é que ele faleceu, a verdadeira causa da sua morte.
– Chocada com a frieza polar do filho varão, a mulher quase desmaia, pede um copo de água com açúcar à empregada, e, depois de sorver uns quantos goles do adocicada liquido, de seguida senta num sofá com as pernetas a tremer. Bebe mais algumas gotas e, de seguida, com as mão a tremer, poisa o copo numa pequena luxuosa mesa de prata marroquina. Segundos depois, de forma lacónica, começa a relatar factos: “Teu pai que a alma descanse em paz, tinha aqui na ilha muitos inimigos… ao regressar a casa depois do funeral do seu amigo, Dr. António Silveira, foi lavar e fazer a barba… De repente!...vindo da casa de banho, oiço um terrível lamento – “ Mataram-me mulher!” – Corri assustada para ver o que se passava com o meu Isack, deparei com ele morto, rígido que nem um pau, caído no chão com a boca cheia de uma espuma branca… Dizem, que foram os militares e os padres a…Sabes! Ao regressar do enterro do velho amigo, antes de vir para a casa, foi prestar condolências a família enlutada… como naquele dia fazia-se sentir um imenso calor em São Vicente, pediu um copo de água fria a empregada, foi-lhe oferto uma limonada envenenada que ele bebeu inocentemente… segundo os nossos amigos mais íntimos, foram os inimigos da maçonaria…

- Salomão Levy, naquele remoto dia em que a mãe contou-lhe de forma triste o suposto homicídio do pai, jurou vingar, mas os anos foram passando, esqueceu completamente da vendetta…
Maravilhado com as lindas crioulas e o dinheiro que fluía cada vez mais com o prospero negócio dos barcos, esquecera por completo a sua promessa de retaliação…
Fornicou tudo quanto era cama na ilha, casadas, solteiras, virgens, teve imensos filhos legítimos e ilegítimos e, muitas das mulheres que não suportavam o comportamento mulherengo do Casanova, após alguma pressão, com uma ajuda pecuniária de Salomão, emigravam para as Américas, ou para a velha Europa.

Continuou ganhando dinheiro aos montões, escutava com nostalgia óperas dos mestres Italianos no sobrado do escritório da mansão, onde fornicava muitas das suas amantes, num catre americano. Tudo era perfeito, tudo corria as mil maravilhas. – Mas o destino traiçoeiro, tem das suas!

- Num belo dia de Setembro em que Salomão Levy andava pelos lados do mercado de peixe na faina de negociar peixe, depara com a mulher que lhe desmorona por completo seu charme de bode macho. Pelo mais incrível que pareça, o dom Juan apaixona-se pela primeira vez na sua vida, ao ver tanta beleza resplandecendo de uma só mulher. Dirige-se que nem um bólide junto a preciosidade, tira conversa fiada, aborda a mulata Olinda inúmeras vezes com papo furado, ela não dá bola. Tenta alicia-la com chocolate Suíço, mas em vão. Como tem que terminar um importante negócio, retira completamente exaurido, mas não rendido.
Completamente perturbado com a tampa, da beleza das belezas, fica aflito, e só mais tarde através dos seus informadores vem a saber, que Eulinda é sobrinha de um comerciante menor, um orgulhoso, que é conhecedor da má fama de Salomão Levy, o destruidor de inocências. Proibira a sobrinha Olinda, de ter qualquer tipo de conversa com o mal afamado comerciante.

Desesperado mas sem êxito, Salomão Levy meses sem conta tenta aproximar-se da menina, mas nada de nada consegue. Olinda a bela, continua firme e serena, mesmo sabendo que Salomão Levy, é um dos mais belos homens na ilha.
Enfermo de tanta paixão, perde o apetite, deixa de jogar uril, golfe, e futebol e, o mais estranho ainda, milagrosamente pára de fornicar as suas inúmeras amantes. Jura pela alma do defunto seu pai, que irá desposar Olinda, custe o que custar.
Exausto de tanta insistência, num belo dia num céu azul de Maio, enche-se de coragem e vai ter com os tios de Olinda, aquela mulher que não lhe dá tréguas na mente, nem um segundo se quer.

Trajado com maior elegância possível, vai bater à porta do comerciante, é recebido com frieza; mas por delicadeza é convidado a entrar, e polidamente lhe é indicado um sofá de couro gasto para ele se sentar. De seguida lhe é oferecido um grogue, que educadamente recusa, por ser homem que sempre afirma, que a única bebida alcoólica que ele gosta, são as mulheres.
Tamanha é a aflição de Salomão, quebra o gelo da cerimónia ensenada, e, sem papas na língua, vai directo ao assunto. Os tios da menina, humildes, mas de um orgulho quase doentio, escutam atenciosamente as palavras do galam sobre as suas intenções com Olinda, são inflexíveis ao pedido do rapaz, recusam definitivamente o pedido de casamento de Salomão Levy.

Desesperado, sai da pequena casa do humilde comerciante cabisbaixo, deambula pelas ruas de Mindelo, mas na sua teimosa cabeça não desistiu.
Os tios de Olinda fazem tudo para desgosta-lo da sobrinha, mas o soberano Salomão Levy vai até ao fim… Rapam Eulinda o seu belo cabelo a zero, ele não desiste. Acha-a todavia mais bela do que antes e, a onde quer que ela vá, com a sua cabeça rapada, Salomão Levy está presente, pairando a sua volta.
A família da bela mulher, mesmo assim nunca verga perante a tamanha insistência do tenaz cavalheiro, e encontra uma nova artimanha, para desgostar Salomão Levy definitivamente de Olinda.

Foi terrível. Os tios, fartos do rico comerciante, têm uma abominável ideia, que pensam ser, a solução definitiva para a desistência do cavalheiro.

- Ora! Naqueles tempos no Mindelo, a maioria das casas não tinham instalações sanitárias, as pessoas defecavam em latas que, às nove da noite, com a cidade vazia de transeuntes, eram transportadas até um sítio chamado Caizim, onde eram despejadas as fedorentas latas de merda. Um cheiro nauseabundo invadia as ruas do Mindelo todas as santas noites, naquela hora em que nem os cães ladravam e era só visto, o cortejo das párias mulheres mal pagas, carregando nas suas cabeças, aqueles esgotos aéreos repugnantes…
– Olinda a pobre, foi maldosamente decretada pelos tios, a fazer aquele ofício de pária, no intuito de Salomão Levy desistir do seu querer. Mas não foi o caso! Todas as noites às nove em ponto, na ponta da esquina da casa da amada, Salomão espera por ela, e segue a traz de Olinda, que caminha envergonhada e com passos lentos, atravessando as ruas mal iluminadas da cidade com o conteúdo da lata fétida. Elegante e perfumado, mas sem qualquer tipo de nojo, Salomão acompanha Olinda sem pronunciar palavra até a cloaca. Espera que ela termine o despejo, silenciosamente regressa ao lado dela sem dizer palavra. Um belo dia, acontece o milagre!... 24 Meses passados, Olinda gradualmente começa a trocar algumas palavras solta com Salomão Levy, até que um belo dia ela enche de coragem, não aguenta mais, e confessa a Salomão, que também o ama, profundamente.

Morrendo de felicidade, Salomão dá a língua nos dentes com todas as pessoas que encontra nas ruas da cidade, a notícia espalha pelo Mindelo, e com a boca do povo a pedir justiça, sem mais estratégias e argumentos os tios de Olinda dão a mão à palmatória.
Meses depois, casam-se os pombinhos, na maior felicidade deste mundo, depois de tantos percalços.
A enorme tenacidade de Salomão Levy, foi salva pelo amor, esta força, que Eugénio Tavares poetizou, e cantou com estas palavras: Se Deus não tem media, amor ainda é maior…

17 de jun. de 2009

CONTO: ULISES A ESPERA DE PENÉLOPE

Ulisses a espera de Penélope.

Ulisses como todos os rapazes de S. Vicente tinha os olhos voltados para a baía do Porto Grande. Deslumbrado com os vapores da Blue Star e da Mala Real ancorados na baía da velha cratera em semicírculo, com o Monte – Cara, secularmente contemplando nuvens passando, como um poeta em silencio, Ulisses idealizava a distante Argentina, nas Américas…Um belo dia, enchendo-se de coragem, foi ter com António Cara Linda, um abastado negociante de barcos e velho amigo da família, para que o ajudasse, a realizar o seu sonho. Tirando o boné em sinal de respeito, entrou no enorme armazém do negociador, repleto com miríades de cordas, tintas, e objectos marítimos para ele desconhecidos, e no fundo do armazém, encontrou António Cara Linda sentado numa velha cadeira americana de vai vem, a moda dos Cow Boys, com as pernas estendidas numa mesa, repleta com papéis lendo um jornal desportivo… Sem rodeios, foi directo ao assunto e, expressando de forma clara o seu desejo, prometeu a António Cara Linda, jurando por Deus, ir trabalhar arduamente na terra das pampas, e um dia devolve-lo, a quantia do empréstimo para a sua viagem à terra das vacas infinitas, e de um tal de Jorge Luís Borges, um escritor cego…
Cara Linda, homem bondoso, antigo emigrante que, após trinta anos de dura labuta no mundo, tinha regressado endinheirado a cidade de Mindelo, compreendeu perfeitamente o direito de sonhar do rapaz, foi para com ele, generoso…

Anos mais tarde, depois de muitas vicissitudes, bem na vida, Ulisses era o mulato mais desejado de Doc Sur Buenos Aires. Bailava Tango melhor do que ninguém, trabalhava com primor, e tinha amealhado em pouco tempo, uma considerável fortuna, vendendo charutos de contrabando. Visitava frequentemente, alcovas e bordéis das belas senhoritas Portenhas, mas, sem nunca se esquecer, da sua Penélope, a mulata mais linda na ilha, que ele carregava religiosamente na sua carteira de couro argentino genuíno, numa bela fotografia a preto e branco…

Após uma longa troca epistolar com a princesa, que durou cinco anos, e cinco meses, pediu por correspondência, a mão da amada aos pais e, com grande felicidade, foi-lhe concedido a bênção dos progenitores… através de um procurador, após rígidas instruções de Ulisses, foram regrados todos os papéis num rigor burocrático colonial só visto, e meses depois, ficou marcado o dia do casamento por procuração, devido a ausência do noivo emigrante, na distante Argentina…


Naquele dia, a cidade brilhou! …E, contam os mais velhos da ilha, que Penélope é sem dúvida, até hoje, a mais linda de todas as noivas vistas neste burgo. Naquela data memorável, fora conduzida ao altar pelo excelentíssimo Sr. Doutor juiz, Manuel da Cunha e Sacramento Pais Ferreira, padrinho do enlace por consentimento do aventureiro Ulisses.
Célebre foi a festa do enlace, com centenas de convidados distintos na sala do Nho Jom Tolentino no bairro, Monte de Deus, onde tudo era foguetes, tambores e manjares, durante cinco dias sem parar…

Terminado a festança, duas semanas mais tarde, Penélope embarcou para Buenos Aires, numa noite de Fevereiro de um frio cortante, e um escuro de breu, em que a cacimba sem piedade, chicoteava as costas dos remadores se mi nus, do bote de António Cara Linda… Penélope como o coração apertado de saudade, triste embarcou no navio inglês, Faith, barco da mala real que rumava primeiro ao porto de Santos no Brasil, e logo a capital Argentina…
Com um ambíguo sentimento de curiosidade e saudade, Penélope deixou os pais no cais chorando, na companhia de alguns familiares, que acenavam a princesa com lanternas acesas no piche da noite tropical no velho cais da alfândega, com as suas gruas fálicas, fornicando a escuridão… Era a hora di bai… pensou a musa, lembrando-se por alguns segundos da belíssima morna do poeta Eugénio Tavares e, simultaneamente, escutar o chapinhar dos remos cadenciados do bote entrando e saindo da água salgada…

Com o paquete cortando o azul imenso do mar, num esforço titânico Penélope no segundo dia de viagem logra sair da sua cabine depois de ter vomitado as tripas coração, de tanto chorar, até não ter lágrimas para derramar tanta saudade… Com as pernas tremendo, dirige-se para o salão da nave e, ao entrar pela a porta adentro, depara com um passageiro Cabo-verdiano, um belo homem, com quem já tinha cruzado várias vezes, na pequena praça da cidade de Mindelo…O cavalheiro, de paletó branco e sapatos a duas cores, (preto e branco) brilhando impecavelmente, ao avistar a formosa mulata entrando, levanta-se do seu lugar, convida Penélope cordialmente para a sua mesa no amplo salão inglês, decorado com um enorme quadro com motivos de uma caçada, onde homens a cavalo, e uns sabujos raivosos, perseguem uma raposa, numa floresta deprimentemente escura. O pintor, um medíocre, com certa habilidade, logra transmitir para a tela uma certa atmosfera kitch…
Com o seu cabelo crespo preto de azeviche alisado com brilhantina a moda de Carlos Gardel e um bigode perfeitamente simétrico, o elegante homem é um aventureiro que reside em Salvador da Baía e regressa para o Brasil, após longas férias no arquipélago, terra onde o viu nascer.
Com seu ar de sedutor afro-latino, Penélope não consegue resistir ao charme do peralta, no quinto dia de navegação é seduzida de forma admirável, pelos gestos graciosos do cavalheiro, também as suas bonitas palavras, no belo e cantado português do Brasil… Fora desflorada com mestria num piscar de olhos pelo astuto António Cabo-Verde, malandro cafétão conhecido em todas as esquinas de Salvador. Apaixonam-se perdidamente, amam até a exaustão, com os ingleses da tripulação indiferentes, aos seus jogos de amor…
– Penélope, nunca chega ao seu suposto destino… Como disse um sábio: O destino?... A gente faz! …
Arrasado com esta fatalidade, e sem nunca perceber o destino da amada, louco de dor Ulisses perde a noção do tempo…
– Hoje, velho e andrajoso, com uma barba enorme e uns cabelos sujos desgrenhados feitos punhais prontos para espetar-lhe no seu coração destroçado, triste, Ulisses senta todos os dias no cais numero 7 em Doc Sur Buenos Aires acompanhado pelo seu cão Argos. Olha para o vazio, do imenso horizonte… Dizem que está esperando o fantasma da amada, que nunca chegou aos seus braços.

Tchale Figueira

21 de mar. de 2009

Conto por tchale Figueira

Quando Salomão Levy recebeu o aziago telegrama anunciando a morte do pai, soube de seguida que tinha que abandonar a sua amante a baronesa dona Felipa de Ferreira, as óperas no teatro D. Carlos que tanto adorava, e as farras em Lisboa naquele tempo turbulento. Apreensivo, (talvez pensando na herança) teve que embarcar no primeiro paquete da companhia colonial pronto a cumprir o seu destino. Numa manhã de um dia chuvoso e triste de um mês de Dezembro bem cedo, o vapor zarpou do cais de Sodré rumo à sua ilha natal São Vicente, onde lhe esperava grandes responsabilidades. Sendo o filho primogénito e irmão de mais cinco irmãs que também viviam naquele tempo à grande e à francesa na capital lusitana à custa do seu pai Isack Levy um próspero comerciante na cidade do Mindelo que, ao chegar a casa depois de um bom negócio, despejava o conteúdo dos seus bolsos das calças e do casaco – libras esterlinas em ouro que atirava para a cama com colchas da ilha da Madeira, e logo em alto som gritar: Mulher!... Hoje!... Foi um dia e peras…

- Após dez dias de viagem comendo sopa no enfadonho e lento barco a vapor – o tempo cura todos os males – Salomão Levy sentiu-se conformado com a decessa do progenitor e numa manhã quente de Dezembro nos trópicos, avistou o ilhéu dos pássaros com a sua forma cónica de falo em erecção e teve saudades do sexo cheiroso da baronesa dona Felipa de Ferreira…

Desembarcou num calor infernal num dos muitos escaleres da família no cais Novo da alfandega e, ao chegar a casa, deparou com umas senhoras trajadas rigorosamente de preto do bico dos pés à cabeça, com brincos forrados de preto.
Entre elas, deparou com algumas carpideiras que tinham sido contratadas para a recepção dolorosa do Jovem Salomão Levy pela senhora sua mãe, inconsolável, que chorava aos cântaros.
As pranteadeiras tentam ensaiar um carpido, são autoritariamente postas no largo da rua pelo novo patrão que determinadamente fala nestes termos a sua mãe: “Senhora minha mãe! O senhor meu pai morreu, sou doravante o senhor desta casa. As choramingas não trazem de volta o homem. Todos sentimos com profunda magoa a sua morte, mas a vida continua minha senhora! … Gostaria de saber como é que o senhor meu pai faleceu, a causa da sua morte – Chocada com a frieza polar do filho varão, a senhora pede um copo de água com açúcar à empregada e, depois de sorver uns quantos goles da água adocicada de seguida sentar no sofá com as pernas a tremer. Bebe mais algumas gotas e, com as mão a tremer, poisa o copo numa pequena mesa de prata marroquina. Laconicamente começa a relatar: - “O teu pai que a sua alma descanse em paz tinha aqui na ilha muitos inimigos… Ao regressar a casa depois do funeral do amigo o Dr. António Silveira, foi fazer a barba… De repente!... Da casa de banho oiço o terrível grito – “ Mataram-me mulher!” – Corri para ver o que passava com o meu Isack, deparei-o morto caído no chão com a boca cheia de uma espuma branca… Dizem que foram os militares… Ao regressar do enterro do amigo ele foi prestar as suas condolências na casa do morto e como fazia um imenso calor pediu um copo de água fria e foi-lhe oferto um refresco. Segundo os seus amigos mais íntimos foram os inimigos da maçonaria que o envenenaram…

- Salomão Levy naquele remoto dia em que a mãe contou-lhe o suposto homicídio do pai jurou vingar a sua morte mas os anos passaram e esqueceu completamente da sua vendetta…
Maravilhado com as lindas crioulas e o dinheiro que fluía cada vez mais com o prospero negócio dos barcos esqueceu da retaliação.
Fornicou tudo quanto era cama na ilha teve imensos filhos legítimos e ilegítimos e muitas das mulheres que não suportaram o comportamento do incorrigível Casanova com a sua ajuda pecuniária emigraram para as Américas ou para outros países distantes.
Continuou ganhando dinheiro aos montões, escutava com nostalgia óperas dos mestres Italianos no sobrado da mansão onde fornicava as suas amantes num catre americano, tudo era perfeito tudo corria as mil maravilhas. – Mas o destino traiçoeiro tem das suas!

- Num belo dia de sol em que Salomão Levy anda pelos lados do mercado de peixe na faina depara com a mulher que lhe desmorona por completo seu charme de bode macho. Pelo mais incrível que pareça o dom Juan apaixona-se pela primeira vez na sua vida e ao ver tanta beleza resplandecendo de uma só mulher dirige-se à mulata Olinda. Tenta aborda-la mas em vão.
Perturbado com a recusa mais tarde através dos seus informadores vem a saber que Eulinda é sobrinha de um comerciante menor que, sendo conhecedor da má fama de Salomão Levy o destruidor de inocências proíbe a sua sobrinha qualquer tipo de aproximação do mal afamado Casanova.
Desesperado e sem êxito Salomão Levy meses sem conta tenta aproximar-se da menina mas nada de nada consegue. Olinda a bela continua firme e serena mesmo se Salomão Levy é um dos mais belos homens na ilha.
Enfermo de tanta paixão perde o apetite deixa de jogar uril e golfe e milagrosamente pára de frequentar as suas inúmeras amantes. Jura pela alma do defunto seu pai que irá desposar a bela Olinda custe o que custar.
Exausto e estancado de tanta insistência num belo dia solarengo do mês de Maio enche-se de coragem vai ter com os tios da formosa moça que não dá tréguas a sua mente em nem um segundo de descanso.
Trajando com maior elegância possível vai bater à porta do comerciante e é recebido com frieza. Convidam-no polidamente para sentar num sofá de couro vermelho logo lhe é oferto um grogue que educadamente recusa. Sem papas na língua de tanta aflição vai directo ao assunto mas os tios da Olinda humildes mas orgulhosos escutam o que o galam tem a dizer mas são inflexíveis recusam o pedido de casamento. Desesperado sai da pequena casa do humilde comerciante cabisbaixo mas a sua teimosa cabeça não desiste. Os tios fazem tudo para desgosta-lo da bela sobrinha orgulhoso e soberano Levy vai até ao fim… Rapam Eulinda o cabelo a zero ele não desiste. Acha-a todavia mais bela do que antes e a onde quer que ela vá com a sua cabeça rapada lá está Salomão Levy pairando a sua volta mas a família da jovem mulher não verga perante a insistência do tenaz cavalheiro…

Foi terrível. Os tios de Olinda fartos do próspero comerciante têm uma abominável ideia que pensam ser a solução definitiva para desistência de Salomão Levy.

- Naqueles tempos no Mindelo a maioria das casas não tinham instalações sanitárias as pessoas defecavam em latas que às nove da noite com a cidade vazia de transeuntes eram transportadas até um sítio chamado Caizim onde era despejada a fedorenta merda. Um cheiro nauseabundo invadia a cidade do Mindelo naquela hora que nem os cães ladravam e era só visto o grupo de párias e mulheres mal pagas carregando nas suas cabeças aqueles esgotos aéreos repugnantes… – Olinda foi maldosamente decretada pelos seus a fazer este ofício de serviçal no intuito que Salomão Levy desistiria do seu intento. Mas não foi o caso. Todas as noites às nove em ponto na ponta da esquina da casa da amada Salomão segue a traz de Olinda que caminha com passos lentos nas ruas da cidade com o conteúdo da lata fétida. Elegante e perfumado e sem qualquer tipo de nojo acompanha-a altivo até a cloaca e regressa de Caizim ao lado da jovem que passados meses gradualmente começa a trocar palavras soltas com Salomão e um dia lhe confessa que também o ama. A notícia espalha pela cidade sem remédio os tios de Olinda dão mão à palmatória e
meses depois os dois casam na maior felicidade depois de tantos impedimentos e percalços. A enorme tenacidade de Salomão Levy salvou o seu amor e o da sua amada Olinda.