30 de mai de 2010

LETRAS SOLTAS


Entro em casa deparo com Virgínia na sala de jantar. Está sentada numa destas cadeiras ortopédicas e, na grande mesa de mogno vejo montões de livros e papéis que deduzo serem exercícios dos seus alunos de Francês. Nosso filho ao lado dela silenciosamente está lendo Asterix nos jogos olímpicos. Os meus cães no quintal com o seu admirável olfacto já notaram a minha presença começam a latir de contentamento. Vou abrir a porta do quintal eles entram na sala aos saltos fazendo-me festas abanando as suas caudas em espiral de forma frenética… Com o tempo os latidos tornam-se maçador envio-os de novo para o seu habitat... e, como seres obedientes que são vão mexendo as suas caudas…
Puxando uma cadeira sento-me e digo a Virgínia – Tens um momento? Quero falar contigo… é… é… sobre Roberto que afinal está numa clínica psiquiatra em Basileia e não na Índia como eu pensava. Recebi hoje uma carta de um psiquiatra de Basileia esclarecendo a misteriosa história do embrulho e da tal carta. – Levantando a cabeça dos livros Virgínia arregala seus olhos negros e exclama: - O quê!... Queres dizer que a história de Roberto na Índia é mera fantasia?... Mas diabos! Como é que foram lá parar o embrulho e a carta? – É uma longa história… mas vou tentar em breves palavras esclarecer-te esta bizarra aventura!...
- Nosso filho que não está para conversas de adultos pede licença de seguida vai para a rua brincar com uns garotos que tive de dar uns quantos berros por estarem a bater com a merda de uma bola na nossa porta – Vão para praça jogar!... Aqui não dá!.. A televisão está aberta levanto da cadeira para fecha-la… Porra! A Mezzo está transmitindo o concerto de DJhon Coltrane Live in Newe Port... Que pena! Não é o momento… Regresso a mesa começo a falar: Um tal de doutor Schneider da clínica psiquiatra da universidade de Basileia escreveu-me encontrei esta carta hoje no correio… tenho a carta aqui no bolso … Queres escutar o conteúdo?... Mas… terei que traduzi-lo mais ou menos a letra por estar escrito em alemão! – Lê António!... Diz-me Virgínia mirando-me nos olhos – Estou curiosa!... A propósito! … Queres uma cerveja?... – Quero duas!... E, por favor bota as duas no grande copo… estas mini cervejas não matam a sede de um homem! - Vou busca-las! … Começa a leitura sou todo ouvidos!

Ao terminar a leitura resmungo: Chiça!... Como é chato traduzir! … Virgínia faz um sorriso… vejo na sua face que ela ficou emocionada. Com branda voz ela lamenta: Coitado do Roberto!... Que sina! – Pois é Virgínia vou ter que ir a Basileia ver se consigo trazer o meu amigo comigo para Cabo-Verde. Ele merece sair daquela horrível clínica… quiçá aqui encontre paz. Abanando a cabeça de forma positiva em sinal de ter concordado com a minha ideia Virgínia fica me olhando silenciosamente em quanto embrulho lentamente a carta.
Para quebrar o silencio levanto da cadeira passo a minha mão direita na sua bela face remato que vou para o meu atelier continuar a leitura das restantes páginas daquele louco calhamaço mesmo sabendo que aquilo tudo é pura fantasia do meu amigo que está doente… De repente me vem a tona o trágico filme… Mente Brilhante. É a história verídica de Djhon Nash um génio da Universidade de Prince Thown que foi galardoado com o prémio Nobel sofria de paranóia e esquizofrenia tinha visões mas logrou controlar a sua doença… Meu Deus!... De facto a genialidade e a loucura andam sempre de mãos dadas!... O meu amigo Roberto não será um génio mas aquilo que ele fez em termos de arquitectura é pura Arte…

O calhamaço está dividido entre as paginas lidas e as não lidas. Com uma certa ansiedade num gesto automático acendo a lâmpada na mesa de trabalho puxo o banco alto que está debaixo da mesa repouso o meu traseiro nele bebo uns quantos golos do que resta na caneca da cerveja pouso o grande copo na mesa. Ligeiramente a tremer de emoção agarro uma folha das não lidas levanto a folha até o nível dos meus olhos começo a ler:

- Finalmente logrei sair da maldita prisão! O guarda negligente deixou a porta da prisão aberta. Como tinha umas roupas de passeio num armário na cela, sorrateiramente escapei pela porta principal, sem ninguém dar fé, que eu era um dos prisioneiros daquele estabelecimento. Estou agora numa aldeia nas montanhas, mas não me sinto bem aqui. Os seus habitantes são estranhos; aparecem só para me oferecer água e comida. E, o mais estranho nisto tudo, é, o casal que me dá guarida e me traz comida. Estão sempre vestidos de branco como os guardas na prisão e, apesar de serem indianos, falam comigo num perfeito suíço alemão?... Francamente!... Já não entendo mais nada! Que Índia é esta? Chove sem parar, da janela da cabana vejo um enorme bosque, onde uns espantalhos vestidos de guerreiros, com mascaras medievais horrorosas, passam constantemente galopando em cavalos brancos. Carregam na cintura umas enormes espadas e, em suas mãos, enormes lanças, que apontam para a minha cabana dando gritos de guerra bestiais. Tenho um medo profundo de sair desta cabana, apesar do seu monástico desconforto. Nesta cubata, só existe uma pequena mesa, um banco, uma latrina imunda, uma lâmpada horrível, e uma desconfortável enxerga onde durmo. Estou perdido! Sinto-me de novo encarcerado! Não há muita diferença, entre a prisão onde estive, e este lugar! Sinto-me de novo num labirinto de coisas incoerentes. Penso que os aldeões andam drogando a minha comida. Sonho incessantemente com coisas horríveis, e aparece sempre nos meus sonhos, a cabeça degolada de Prety, a mulher que alegam eu ter assassinado. Nos pesadelos, vejo a sua cabeça e o seu pescoço sangrando, transportada numa bandeja, por um enorme macaco, que faz piruetas a minha volta. Todo suado, grito que não matei aquela mulher naquele horrível hotel em Calcutá, grito que tudo não passou de uma grande tramóia para roubarem-me os meus dólares! Procurem por favor, o verdadeiro assassino! Grito! Mas o meu grito, é um grito abafado, que não sai da minha garganta. Pressinto que a minha cabeça, qualquer dia, irá rebentar. Oh meu Deus!

– Coitado do Roberto! Penso em quanto levanto com a mão esquerda a caneca para engolir os restos mortais da cerveja que está horrivelmente quente. Poiso a caneca e a folha A4 para tomar fôlego da narração que dá-me arrepios e, neste meio tempo proveito para fechar a janela do atelier… Na rua uns cães correndo atrás do cheiro de uma cadela com cio ladram sem parar. Todos querem montar a cadela noto que o mais forte um macho castanho enorme distribuindo dentadas logra afastar os outros bichanos e lá monta a cadela… a algazarra é ensurdecedora… Caramba! É igual para todos na natureza! … O forte fode os fracos lamentam ou batem palmas… como dizia o Vovô Mercano: Fode a cabra fode o bode só não fode quem não pode… Que se lixem os cães!... Vou continuar a minha leitura!


- Estou farto desta cabana! Mas tenho um medo atroz daqueles monstros que pululam na assombrada floresta. Não vou comer hoje. Vou fingir comer e, quando menos eles esperam, fujo deste lugar. Ahhahahhahha ahahahahahahh…
Cavei um buraco, logrei sair, do inferno!
A noite está estrelada, a chuva desvaneceu, eu vou para Varanasi!!!! Caminharei com cuidado pelos atalhos da floresta e, quando estiver bem longe, certamente que vou encontrar pessoas de boa fé, que hão de me indicar o caminho para a cidade santa. Finalmente vou a Benares! Curioso! Porque, que os malditos guardas, nunca retiraram os papéis e utensílios, onde venho escrevendo esta atribulada viagem aqui na indiana?

- Noto que Roberto deixa um espaço na folha com mais de 5 centímetros em branco de repente dá um olímpico salto na narração… Está num outro lugar… escreve:

-













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