15 de abr de 2010

LETRAS SOLTAS


… - Nestas velhas rotinas do dia a dia aqui na ilha resolvi ir de novo ao correio com a felicidade de ver Maria dos Sorrisos com a ilusão que será hoje o dia em que ela irá ceder… Vou convida-la para jantar no restaurante mais fino da cidade. Nem pau! - Como sempre Maria dos Sorrisos está bem disposta sorri a seu bem-querer mas rejeita mais uma vez o meu convite. Diz que eu sou um coleccionador de calcinhas das mulheres desta cidade e que a dela não hei de cheirar nunca.!... Nem por hipóteses! – Deixa disso Maria!... Eu gosto verdadeiramente de ti! – Vai rapaz! … Vai lá ver as tuas cartas seu bazofo de uma figa! … A mim não me enganas!... Tchau! – Por hoje desisto!... A espera é amarga mas quando ela chegar… o seu fruto será doce. Repetindo o nosso velho jogo envio-lhe beijos no ar ela finge apanha-los afasto caminhando na direcção da minha caixa de correio o numero 86 no outro lado do corredor.

- Raios! A única carta no receptáculo é uma carta da Suíça de um tal Dr. Thomas Schneider da PUKB Clínica Psiquiatra da Universidade de Basileia.
A minha intuição diz que esta carta está relacionada com as loucuras de Roberto.
Saio dos correios cumprimento o cego Milton meu velho amigo vendedor de guloseimas tento em vão disfarçar a voz mas o safado como sempre acerta. Dando uma gargalhada sonora ele chama-me pelo meu nome e diz: – Bom dia António!.. A viola toca ou não toca? – Está afinada Milton!... Mas caramba homem!... É impossível ludibriar-te seu cego malandro!...
- Sento-me no meu banco preferido ao lado da estátua de Luís de Camões olho para o céu. O dia está esplendoroso verdadeiramente bonito. Baixando a cabeça miro o busto do poeta lusitano lembro-me destes versos dos Lusíadas: Alma minha gentil que partiste tão cedo desta vida, repousa lá no céu eternamente...
Inês de Castro!... Que merda! Lembrando da carta do tal doutor Schneider que repousa no bolso da minha camisa agarro o envelope com cuidado retiro uma folha dobrada que desdobro e, que pelos vistos foi dactilografada num computador. Diz:

Prezado senhor António Pereira: Mais ou menos um mês a traz, o senhor deve ter recebido um calhamaço de papel e uma carta do senhor Roberto Hauser Soares, proveniente da Índia, não foi? Bem! Não sei bem como explica-lo esta história, mas vou tentar ser o mais claro possível.
O seu amigo, o senhor Roberto Hauser Soares, está internado aqui na nossa clínica já faz algum tempo. Depois de um acidente de viação que causou a morte da sua mulher, o senhor Roberto inconformado, isolou-se em sua casa, entregando-se perdidamente na bebida. Durante meses, não abandonou a sua residência, bebeu, bebeu de forma suicida, até o dia em que os vizinhos ouviram o senhor Roberto Hauser Soares gritando aos berros. Chamaram a polícia, também o pessoal aqui da clínica. Por estar num estado de delírio ele foi detido posto num colete de força, por ter entrado num estado de violência perigosa. Nos primeiros meses foi tratado com injecções para apazigua-lo e, nos momentos mais calmos, sem reconhecer bem as pessoas, escreveu de forma compulsiva, as supostas memorias duma viagem a índia, fruto da sua imaginação.
Senhor António! Peço-lhe desculpas pela minha linguagem, mas como sabe, nós os psiquiatras, temos a fama de não batermos muito bem da tola e, aquilo que eu fiz, devo confessar-lhe nesta missiva, que até hoje não sei se foi bom ou mau para
todos nós. Fiz uma vontade ao seu amigo Roberto, algo estranho! Numa sessão terapêutica em que ele esteve calmo, conversamos sobre várias coisa, ele mostrou-me os papéis, que acreditava ter escrito na Índia, baralhando a morte da sua esposa, com um crime que ele diz ter cometido na Índia. Mera fantasia, mero sentimento de culpa, do acidente da sua falecida esposa que não quis aceitar de forma real. Naquele dia, na nossa sessão, a conversa foi agradável, entusiasmado disse-lhe que de vez em quanto eu vou a Índia dar conferencias sobre psicologia. Exaltado com a coincidência pediu-me de forma suplicante, que levasse as escritas comigo num embrulho e uma carta e, da Índia, posta-los…A tal carta e o embrulho que o senhor já deve ter recebido, endereçado a vossa senhoria Sr. António Pereira, S. Vicente, nas ilhas de Cabo-Verde. Francamente não sei todavia porque lhe fiz a vontade, foi um impulso meu, de compaixão talvez? peço-lhe as minhas sinceras desculpas.
Devo dize-lo, que o senhor Roberto Hauser Soares, depois de dois longos anos aqui internado na clínica, melhorou consideravelmente, e só fala em viajar para Cabo-Verde, para ir visita-lo.
Caso o senhor esteja interessado na saúde e recuperação do seu velho amigo, lhe aconselho a vir até Basileia, e quem sabe, fazerem uma viagem terapêutica as vossas ilhas, terra do pai do senhor Roberto Soares.
Com os melhores cumprimentos, dês de Basileia.

Dr. Thomas Schneider- PUK tel. 004161 693 14 33



- Eu sabia! Eu sabia que havia algo de anormal nos escritos de Roberto. Valha-me Deus!... O meu amigo necessita da minha ajuda… e, como disse um sábio: Os verdadeiros amigos são como as estrelas. As vezes estão cobertos pelas nuvens mas sabemos que estão lá no alto do nosso peito… Vou ter que consultar a minha esposa Virgínia mas de todas as formas irei a Basileia visitar o meu amigo e tentar saca-lo daquela horrível clínica…

Caminhando até a avenida marginal vou pensando em mil maneiras de trazer Roberto para Cabo-verde e, entre os mil pensamentos penso que Fontainhas em Santo Antão será o lugar ideal para ele habitar. Todavia existe a velha casa do seu falecido pai… com alguma reparação terá o espaço perfeito para viver… quiçá ele possa pintar ou fazer projectos arquitectónicos interessantes como aqueles que ele anteriormente fazia com muita arte. Quem sabe! Talvez encontra uma bela crioula que lhe possa dar alento… Bem! Estou especulando! … Mas quem não deseja o bem-estar das pessoas que gostamos e amamos?...

Na avenida carros e camiões barulhentos passam indo e vindo do cais do porto começo a chatear-me com a poluição sonora assobio um táxi entro no carro sentencio: Para o Monte Verde Joãozinho! Vou para a natureza sentir as energias cósmicas que aquele lugar mágico transmite – Vamos! – Digo ao taxista que é meu conhecido. - No caminho mando-o parar numa loja compro uma bela garrafa de vinho Chileno uns quantos pães rústico azeitonas e uma pasta de atum que é uma delicia… Feito as compras dez minutos depois entro no táxi seguimos caminho… Minha cabeça é uma cascata de pensamentos vou planeando e filosofando sobre a condição humana. - Qual é o motivo das nossas tristezas? … Será que existe um destino para cada um de nós?... Probabilidades quânticas… como teorizam hoje os astrofísicos?... Será que o Big Beng existiu?... Merda!... Para!... Para!... António!... Se não vais é ficar doido e não terás a possibilidade de ir buscar o teu amigo em Basileia! … Desata-mo a rir o taxista que é uma raposa dá fé do meu sorrir diz: - Você está rindo?... A história deve ser interessante senhor António… Contai-me para que eu também possa rir. – Não é nada Joãozinho estava aqui a pensar num amigo que anda a rasca… este meu sorriso não tem nada a ver com mulheres não tem nada a ver com rabos de saia. – Joãozinho que é inteligente cala e presta atenção na estrada. Com segurança sobe o que resta do trajecto reina no carro silêncio só cortado pelo motor… de repente digo-lhe para estacionar junto a uns pinheiros bravos onde gosto de ficar.
- Venha buscar-me quando forem as cinco e meia da tarde… o frete será pago na descida. Ok? – Ok senhor António! Até mais logo. – Tchau!

Debaixo dos pinheiros abro a garrafa com o meu canivete suíço… Porra!... Esqueci-me de trazer um copo… que se lixe!... Vou beber directamente na boca da garrafa… Levantando a cabeça corro olho para o magnífico e imenso céu azul celeste fito um bando de corvos atacando um falcão… o falcão que é mais veloz do que os corvos consegue fugir das garras do bando das plumas azeviche voa para longe… Lembro-me do filme de Alfred Hitchkok Birds em português Os Pássaros um tremendo triller e, como pensamento puxa pensar começo a recitar os primeiros versos do longo poema o Corvo de Edgar Allen Poe este grande escritor e poeta que morreu delirando em álcool em Baltimore… mas voltando a vaca fria…
Bem!... O meu amigo Roberto todavia não morreu! … Mas se ele ficar naquela clínica certamente que irá morrer de tédio e da porcaria dos químicos que o fazem engolir todos os dias…
Corto um pão rústico em dois com o canivete barro a pasta de atum com abundância nas duas fatias corto algumas azeitonas com cuidado atiro as sementes para o chão corto um tomate umas folhinhas de manjericão junto tudo e faço um delicioso sandes que começo a comer lentamente. De vez em quando apanho golpadas na boca da garrafa do óptimo vinho Chileno… Olhando o horizonte contemplo as eternas nuvens em algodão rama que pairam como navios fantasmas sobre a ilha de São Nicolau a seu lado um pouco mais a direita vejo o minúsculo ilhéu raso habitat de um lagarto pré-histórico único no mundo e mais a sul ilhéu Branco com a sua forma de cruzador de pedra. Mais perto de São Vicente está Santa Luzia a única das ilhas que tem nome de mulher e…bem mais perto dos meus olhos aqui em São Vicente vejo ponta de Panilinha debaixo dos dois negros vulcões do Calhau onde um grande branco de ondas entra numa gruta e sobe no ar em repuxo num espectáculo único que a natureza me brinda… É Curioso! …Ao contemplar a natureza sendo ateu convicto há uma sensação transcendental que evade a minha alma… Praia Grande é de ver e rever com a sua areia branca e suas dunas banhadas pela espuma do mar com matizes azuis e verdes… é mesmo de parar o fôlego! … Tudo é extraordinariamente belo. Mastigo a deliciosa sandes bebo vinho meus pensamentos estão em Basileia… Fecho os olhos, imagino a toponímia da bela cidade helvética dividida em duas partes pelo rio Reno. Grosse Basel e Klein Basel ligados por várias pontes: Drei Rosen Brucke Johanita Brucke Mitelle Brucke Wetststein Brucke... Vejo os barcos que vão rio acima rio abaixo barqueiros e as suas barcaças ligados a um sistema de cabos puxados de um lado da margem a outra igual a teleféricos que inteligentemente deslizam na agua com a força da corrente do rio e vão carregando passageiros de uma margem a outra… Os eternos cisnes que embelezam a água com a sua elegância jovens e velhos nas suas bicicletas eléctricos e autocarros pintados de verde inglês Markt Platz com a sua câmara municipal que é uma magistral obra de arquitectura e é uma mistura de Gótico Barroco e outros estilos mais recentes aquele edifício pintado todo de vermelho com ornatos doirados e pinturas na fachada o seu tecto verde harmonioso…
Scheisse!... Decididamente vou ter que visitar Roberto e, se ele quiser vir comigo hei de traze-lo para Cabo-Verde...

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