25 de nov de 2010

SOLITARIO BLUES BAR VI


O pó de cantária foi um demónio, todo nu pelado e, com a verga que nuca mais descia, com a bela Marisol acompanhando o baile; num cio de gato e gata insaciáveis, mocaram três dias e três noites, apenas fazendo pequenos intervalos para pedir comida por telefone, num restaurante chinês, comida picante, recomendada com extra gengibre por Mulato, que é entregue pelos rapazes que distribuem comida a domicilio com as suas motocicletas barulhentas, e põe cara feia, quando os clientes não lhes dão gorjeta …

Milagre!... Incrível! Depois dos orgíacos três dias com Marisol; da cabeça de Mulato, borra-se por completo, a sua negra Bia, sua primeira moca nas ilhas, a empregada que comia todos a s noites, quando os pais de Mulato dormiam, e ele, sorrateiramente, deslizando para o pequeno quarto onde ela esperava na luz diáfana de uma vela, nua pelada. Mulato que naquele tempo já tinha alguma noção da história de Arte, pensava quando entrava no cubículo: Ela é, sem dúvida, mais bela do que a Vénus do renascentista Boticcelli. Corpo de belas curvas, duro que nem pedra de basalto, bunda redonda de indescritível beleza e, uns seios tesos, que nem o pico do vulcão do Fogo… Estranho!... Bia que sempre lhe acompanhou durante anos na memória por este mundo fora, quando fornicava outras gajas, de repente, com Marisol, se desvanece por completo na neblina do seu esquecimento. Aquela obsessão filha da mãe pela negra Bia, encontrou cura em Marisol, mulher incrível, boa na cama, grande oferta do seu amigo de peito, o Coraçalenho Benjo. Riscou por completo a negra da cabeça, e todas as outras que até hoje tinha comido, e caralho! Não eram poucas. Pela primeira vez, sentiu-se perdidamente apaixonado e… A gaja que a pariu!... Caramba!... Ironia do destino!... Apaixonei-me por uma galdéria e… Juro que irei com ela, até ao desapico do inferno…

Dias depois, meio triste, Mulato despede-se de Marisol, na grande Estação Central, onde os carteiristas Suriname fazem o diabo a quatro com passageiros em trânsito. Vai tentar tirar um novo passaporte, na embaixada portuguesa em Antuérpia. Soube por via de um amigo, que há um português na embaixada, um homem bom, um antifascista que ajuda as pessoas das colónias obterem passaporte, apresentando bilhete de identidade, mesmo estando caducado. Mulato sabe, muito bem, que não pode mostrar, o seu velho passaporte, que tem um selo vermelho de expulsão, carimbado pelas autoridades do País das Águas quando foi expulso mas logrou regressar depois de viver dois meses em Paris na casa da madrinha....
No comboio barulhento, num viagem que dura uma hora, Mulato vai observando sem qualquer emoção, a monótona paisagem plana, cheia de vacas brancas com manchas pretas, tipicamente do País da Águas…
Legalizado, será a grande oportunidade de casar com Marisol; legalizar-se definitivamente no País das Águas, e de seguida, começar o baile. O seu calculo, é frio, que nem o iceberg que afundou Titanic: Masrisol irá trabalhar na rua, ele ocupar-se-á dela, ele continuará a jogar matraquilhos onde é imbatível, onde ganha muita massa e, porque não, uns joguinhos de póquer, e de seven eleven, o jogo de dados americano que tanto gosta?...
Em Antuérpia, faz um frio de cortar a orelha. Pensa por segundos na trágica vida do pintor que cortou a orelha, mas desvia de seguida os pensamentos para coisas mais terrestes. Apanhando um táxi mostra ao motorista o endereço da embaixada, trata das coisas, e no mesmo dia, consegue o passaporte de capa azul. Como tem dinheiro aos baldes que Marisol lhe deu, não sente ganas de regressar de seguida ao País das Águas, resolve entrar em vários bares, onde bebe as melhores cervejas belgas. Já noite,e meio alegre, vai ao Presidente, uma discoteca que ele conhece, que toca a melhor musica soul do mundo. Sendo um exímio bailarino que até a James Brown faria inveja, tem um sucesso incrível no clube repleto de gente fina, que param atónitos, vendo-o dançar. Com um domínio fabuloso do ritimo, e uma elegância leve no seu corpo de Africano, as pessoas aplaudem… Mulato, nesta noite, no local, não é presidente no Presidente, mas sim, o Rei do Presidente…
Engatado a duas gajas, vão para um luxuoso apartamento de uma das meninas, que ele calcula, ser podre de rico,e ali ficam na sacanagem uma eternidade. A coisa dura valentes dias, numa loucura sem freio : A noite, vão bailar no Presidente, de dia, fornicam, comem, dormem, cheiram pó, fumam charros, mas ele nunca esquece da sua Marisol que vai enganando no telefone com mentiras foleiras, dizendo que para obter o passaporte todavia dura alguns dias, que o senhor, o tal antifascista, é muito cauteloso, pois a PIDE, a policia fascista portuguesa do ditador Salazar, anda de olho nele. Marisol, ciumenta e desconfiada, que sabe muito bem, que Mulato é um mulherengo incorrigível, aflita de tanto esperar, diz a Mulato que vai apanhar o próximo comboio para Antuérpia e…. Após uma semana de discussões e chantagens emocionais, ela diz a Mulato no telefone, que há um chulo Suriname que anda tentando gala-la, agarra-la, tentando alicia-la com heroína e, que o filho da mãe é perigoso, tem uma data de putas na rua trabalhando para ele, todas umas drogadas no cavalo…
Foi remédio santo!... Mulato despediu-se das gajas e da música soul da discoteca Presidente, soltou as amarras que nem veleiro na borrasca e, com vento nas velas, regressou feito um raio, ao País das Águas, onde lhe esperava Marisol
O Suriname cabrão, quer roubar-lhe a mulher?... Quer meter a besta, o macaco?... Mulato que não brinca, jura mete-lhe seis ameixas nos cornos, com o seu 45 magnum, estilo Derty Hary, dos filmes policiais do Clint Estwood que ele comprou na candonga. O chulo filho da puta, se armar em carapau de corrida, vai fazer companhia aos anjinhos…
Para defender a sua mina de ouro, a sua Marisol, até ao diabo mata!!!...

Casaram numa cerimónia discreta. Benjo foi seu padrinho, e Suely, companheira da Marisol no comércio da carne, foi madrinha e…
Depois da cantiga monótona do juiz no registo civil, vão os quatros ao Pam-Pam bar festejar, lugar fedorento, pleno de gente de má catadura, meliantes da ondergrownd, assassinos que frequentam o bar mal afamado, um verdadeiro arsenal de dinamite, que pode explodir a qualquer momento. Gente depravada, com falsos códigos de honra, no fundo uma grande treta. Não passam de ladrões de meia tigela. Todos roubam a todos, se puderem, e, Bum Bum!!!!!... É o som que volta e meia se escuta, na triste famosa espelunca Pap-Pam, onde balas assobiam, e facas reluzem, na luz diáfana do malfadado lugar …
Felizmente, a estadia no local é curta. Depois de algumas bebidas e algumas linhas, Mulato paga a conta, vão os quatro a vida. Benjo e Suely tem assuntos para tratar, Mulato e Marisol vão para casa descansar…
Nestas coisas de putaria não existem pausas… Marisol tem que ir a Rua Grande logo a noite em busca de clientes. Mulato tem que estar alerta, sempre por perto, controlando, caso haja gajos armados em besta, tarados que gostam de maltratar as rameiras, sadomasoquistas com gostos especiais, cabrões que recusam pagar, ou querem uma de borla… Em fim!... No seu trabalho de cafetão, Mulato tem que ter o radar dos seus sentidos, em alerta, como um submarino em stand bay, esperando falsos movimentos dos inimigos tarados. Tem que ter o periscópio dos seus dois olhos a todo o tempo, bem abertos…
Num carro que comprou na candonga, passa pela rua onde Marisol trabalha, feito um leão em círculos, defendendo o seu território. Passa vezes sem conta para espiar se tudo está sobre controle e, Marisol que é todavia, uma jovem e linda mulher, é uma das preferidas dos caçadores de buceta… Ele Mulato, não se pode queixar!... Marisol faz uma pipa de massa todas as noites, é obvio, que ele tem que defender com unhas e dentes, neste caso, com faca e pistola, a sua propriedade…

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