21 de jun de 2010

LETRAS SOLTAS

-… Noto que Roberto deixou um espaço na folha com mais de 5 centímetros em branco de repente dá um olímpico salto na narração. Está algures num outro lugar na sua fantasia e escreve assim: - Estou numa pequena aldeia com os intocáveis. Quando aqui cheguei, não quiseram aceitar-me, por me considerarem superior. Depois de algum tempo, lhes convenci que sou apenas um pobre mortal viajando neste mundo, que na terra onde nasci, as castas não existem. Expliquei-lhes, ou melhor dizendo; tentei explica-los, que na minha terra existiam outras formas de descriminação e, que, na segunda guerra Mundial, um doido de nome Adolfo Hitler ao ganhar na Alemanha as eleições com seu partido nacional-socialistas, montou uma ditadura feroz. Louca e perigosa, foi a sua politica, por considerar as pessoas que não fossem da merda da sua raça ariana, (creio que ele pessoalmente era mais eslavo do que ariano) de Unter Mensche. Ou seja, abaixo de cão. Aquele ditador maldito, em cinco anos de guerra que felizmente perdeu, exterminara sem piedade, Milhões de Judeus, Ciganos, e outros povos. Uma verdadeira encarnação do diabo foi Adolfo Hitler, disse aos intocáveis inocentes, que desataram a rir, das minhas histórias incompreensíveis.

- Respirando fundo… quase lamentando… paro por alguns segundos a leitura… Um pássaro passa na janela pega-me um susto solto um palavrão mas recompondo do susto concentro de novo na louca narração que continua assim:

Os intocáveis são mais pobres do que todos os pobres da Índia. São analfabetos, não creio que perceberam os meus relatos sobre os nazis, sobre a suástica, que também se usa na índia, com simbolismo diferente, taõ pouco, sobre a democracia ocidental, sobre os mecanismos da política, etc.… Caramba! Mas são humanos, como todos os humanos, deste globo!... Finalmente fui aceito como um deles. Não sabem de onde eu venho, não sabem que sou procurado por um crime que não cometi, partilham comigo o pouco que possuem, e até ratos comemos. Pois é! Também aprendi a comer ruminantes. A fome, é o pior dos flagelos, na dignidade humana, e, quando lembro, que o buget anual do exército de um país como a França, chegaria para acabar com a fome neste planeta, mais pessimista e misantropo, vejo com desdém aquele mundo dos intocáveis; intocáveis, não no sentido que aqui na índia se usa, para definir estas pessoas. Refiro-me aos grandes bandidos que fazem mover o planeta com os seus negócios: petróleo, urânio, venda de armas. Eu quero que se fodam a todos estes intocaveis com a sua riqueza! Daqui a 100 anos, quem irá lembrar daqueles filhos da puta? Tudo é transitório, nada por aqui fica! Lembro-me neste momento, do meu pai, dizendo-me, esta parábola Cabo-verdiana: Roupa de defunto, não tem bolso!... Ou, seja, deste mundo, nada levamos!... A vida aqui é monótona! Para quebrar a monotonia, resolvi ensinar aos intocáveis, ler e escrever em inglês. É uma forma de eles aprenderem, a participar na sociedade indiana, que é muito cruel com eles. Talvez, é um disparate. Eu um ocidental, armado em evangelizador, e salvador da humanidade!...
Os dias passam, queimamos bosta de vaca para fazer fogo, assar tudo aquilo que nós conseguimos comer. Aqui, tudo o que mexe, é comida: Cobras, ratos, tudo que seja comestível é engolido, e juro que não lamento nem um segundo, esta minha condição de pária. Sentiria feliz aqui, não fosse a minha obsessão de ir a Benares, lavar no Ganges, todos os meus pecados… Ah!... Nos últimos tempos, comecei a ver de novo os dois enfermeiros indianos que cuidaram de mim, na cabana, na aldeia da montanha, quando fugi da prisão. Andam a circundar a aldeia, pressinto que querem montar-me uma cilada, aprisionar-me, para me entregar a polícia. Cada dia que passa, sinto-me vigiado...
Hoje de manhã, chegaram aqui na aldeia, uns Jains, que vão para Varanasi. Vou com eles! Está decidido!...Ah!... Janaismo! Esta estranha religião que nasceu no século 6 antes de Cristo, e foi fundada por um contemporâneo do Buda, de nome Mahavira. Alguns deles, usam panos, outros, os mais radicais, andam nus. A sua filosofia, pelo pouco que eu sei, é de, já mais matar ou comer, qualquer tipo de ser vivo. Alguns usam panos tapados na boca, para que não entre qualquer tipo de ser vivo e possam engoli-lo. No chão que pisam, têm o cuidado de já mais matar qualquer tipo de animal. Seria para mim, impossível ,seguir estas crenças, mas têm todo o meu respeito!... Neste dia chuvoso, sem falar, juntaram aos intocáveis no fogo, protegido por uma cobertura de palha contra a chuva. Beberam água e, depois de longos minutos, ao notarem que eu era estrangeiro, trocaram algumas simples palavras comigo, e, foi assim, que soube, que eles vão para Benares. Vou com eles, é a minha oportunidade de lá chegar, de me ver livre dos homens de branco, que me perseguem faz tanto tempo, e não me dão tréguas, nem nos meus sonhos. Creio que finalmente, vou realizar o meu sonho, será o fim da minha peregrinação, nesta índia de pesadelos.

- Mas caramba! Onde raio vai Roberto buscar tanta fantasia? Sei que é um homem culto de muitas leituras mas tudo tem o seu limite. Bem! Talvez... na loucura não existe um limite entre a realidade e a fantasia. Se o psiquiatra não me tivesse escrito a carta dizendo que o meu amigo está internado naquela clínica em Basileia creio que acreditaria nestas escritas surreais mas fascinantes pela forma como ele escrever de forma solta e simples. Mesmo sabendo do real da situação do meu dilecto há momentos que esta ficção me despista da realidade. Talvez este seja o grande segredo de alguns escritores?... Uma linha invisível entre o ser e o não ser? … Com os olhos cansados dou fé que só a lâmpada da mesa não chega para continuar poisando os papéis estendo a mão até o interruptor que está ao meu alcance acendendo a lâmpada néon do tecto que cintila segundos e depois espalha claridade no meu atelier…

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