
“Carta registada e embrulho proveniente da Índia para o senhor António Pereira, tem a pagar 50 escudos de taxa postal…”
- Com passos rápidos abandono o velho edifício e, que nem flecha dirijo a secção das encomendas lugar que fica num anexo pós moderno no pátio da velha construção. Ao descer numa rampa de cimento escorregadio uma das muitas aberrações arquitectónicas nesta cidade quase que afocinho mas atleticamente recupero o equilíbrio fico quedo de forma elegante digno de um bailarino de dança contemporânea. Recuperado a postura saúdo Milton meu velho amigo cego vendedor de rebuçados e chuinga que uns meninos vadios em vão tentam passar pau com moedas falsas… mas Milton é o máximo!... Todas as vezes que tento surpreende-lo reconhece a minha voz e diz: – Oi António!...Mas é tudo!... Atento aos garotos que querem passar-lhe tchoca sem perda de tempo agarra numa bengala que sacode no ar com raiva mandando os meninos bugiar.
– Na secção das encomendas um forte cheiro a tinta fresca entra pelas minhas narinas faço uma vénia de cortesia ao funcionário mal-encarado obeso suíno que ignora por completo o meu bom dia! - Que se lixe este palerma! e... – Metendo a mão esquerda no bolso direito da minha colorida camisa havaiana saco o meu BI conjuntamente com o sujo talão amarrotado lhes entrego a besta que certifica a minha identidade com olhos de toupeira míope e me faz assinar um livro seboso sem duvida uma das tristes heranças da burocracia fascista colonial Salazarista. Grunhindo ele vai na direcção de uma estante de ferro arrastando seus pés de tartaruga pré-histórica e, em câmara lenta digno de um filme sobre animais do cientista inglês Atten Burows levanta a mão repleta de pelos que nem macaco em défice de evolução do estante saca um embrulho. Um volume todo machucado e um envelope sujo que poisa no balcão. Com maus modos lembra-me que tenho que pagar cinquenta escudos de taxa postal – Vou-te lixar seu sacana! – Sacando a minha carteira do bolso de traz das calças retiro dela uma nota de cinco mil escudos que lhe estendo para debitar a irrisória quantia. Incita protestar digo-lhe de forma fulminante que cabe a ele ter troco na barraca e não os utentes. Puxa da minha mão com brusquidão a nota de cinco mil escudos faz meia volta e desaparece numa enorme porta com ornatos de ferro a moda colonial inglesa instantes depois regressa com o retorno. O patife vem com as duas mãos cheias de moedas de cinco, dez, vinte e cinquenta escudos, que lentamente coloca em cima do balcão. - Caralho!... Uma montanha de moedas! … Com um sorrisinho de filho da puta na sua fuça de porco ele arrota: – Eis o seu troco senhor Pereira! – Fervo de raiva mas, sem argumento agarro as moedas que não conto e meto nas algibeiras da minha calça que ficam cheias e pesadas. Digo adeus ao mal parido que finge não ouvir a minha despedida e some com um sorriso de vitória na porta de ferro bamboleando o seu enorme traseiro de paquiderme. - Maldito rato de esgoto!!!!…
Xingando na cuca a todos os burocratas deste mundo caminho irritado para fora dos correios me vem em mente o absurdo personagem de Franz Kafka: Gregor Samsa do romance A Metamorfose faço o desejo que o pulha amanhã acorde metamorfoseado numa barata….
Felizmente momentos depois a minha fúria passa e, rindo para os meus botões olho de soslaio para a encomenda dou fé que provêem da Índia e o remetente é, Roberto Hauser Soares um velho amigo e colega da escola de arquitectura em Basileia filho de pai Cabo-verdiano e de mãe Suíça. – Mas o que vem a ser?... Há mais de vinte anos que este homem evaporou do mapa dos meus correspondentes... Bem!... Vamos lá ver o que contem esta merda e, espero por bem que não seja uma cobra indiana…
- Com passos rápidos abandono o velho edifício e, que nem flecha dirijo a secção das encomendas lugar que fica num anexo pós moderno no pátio da velha construção. Ao descer numa rampa de cimento escorregadio uma das muitas aberrações arquitectónicas nesta cidade quase que afocinho mas atleticamente recupero o equilíbrio fico quedo de forma elegante digno de um bailarino de dança contemporânea. Recuperado a postura saúdo Milton meu velho amigo cego vendedor de rebuçados e chuinga que uns meninos vadios em vão tentam passar pau com moedas falsas… mas Milton é o máximo!... Todas as vezes que tento surpreende-lo reconhece a minha voz e diz: – Oi António!...Mas é tudo!... Atento aos garotos que querem passar-lhe tchoca sem perda de tempo agarra numa bengala que sacode no ar com raiva mandando os meninos bugiar.
– Na secção das encomendas um forte cheiro a tinta fresca entra pelas minhas narinas faço uma vénia de cortesia ao funcionário mal-encarado obeso suíno que ignora por completo o meu bom dia! - Que se lixe este palerma! e... – Metendo a mão esquerda no bolso direito da minha colorida camisa havaiana saco o meu BI conjuntamente com o sujo talão amarrotado lhes entrego a besta que certifica a minha identidade com olhos de toupeira míope e me faz assinar um livro seboso sem duvida uma das tristes heranças da burocracia fascista colonial Salazarista. Grunhindo ele vai na direcção de uma estante de ferro arrastando seus pés de tartaruga pré-histórica e, em câmara lenta digno de um filme sobre animais do cientista inglês Atten Burows levanta a mão repleta de pelos que nem macaco em défice de evolução do estante saca um embrulho. Um volume todo machucado e um envelope sujo que poisa no balcão. Com maus modos lembra-me que tenho que pagar cinquenta escudos de taxa postal – Vou-te lixar seu sacana! – Sacando a minha carteira do bolso de traz das calças retiro dela uma nota de cinco mil escudos que lhe estendo para debitar a irrisória quantia. Incita protestar digo-lhe de forma fulminante que cabe a ele ter troco na barraca e não os utentes. Puxa da minha mão com brusquidão a nota de cinco mil escudos faz meia volta e desaparece numa enorme porta com ornatos de ferro a moda colonial inglesa instantes depois regressa com o retorno. O patife vem com as duas mãos cheias de moedas de cinco, dez, vinte e cinquenta escudos, que lentamente coloca em cima do balcão. - Caralho!... Uma montanha de moedas! … Com um sorrisinho de filho da puta na sua fuça de porco ele arrota: – Eis o seu troco senhor Pereira! – Fervo de raiva mas, sem argumento agarro as moedas que não conto e meto nas algibeiras da minha calça que ficam cheias e pesadas. Digo adeus ao mal parido que finge não ouvir a minha despedida e some com um sorriso de vitória na porta de ferro bamboleando o seu enorme traseiro de paquiderme. - Maldito rato de esgoto!!!!…
Xingando na cuca a todos os burocratas deste mundo caminho irritado para fora dos correios me vem em mente o absurdo personagem de Franz Kafka: Gregor Samsa do romance A Metamorfose faço o desejo que o pulha amanhã acorde metamorfoseado numa barata….
Felizmente momentos depois a minha fúria passa e, rindo para os meus botões olho de soslaio para a encomenda dou fé que provêem da Índia e o remetente é, Roberto Hauser Soares um velho amigo e colega da escola de arquitectura em Basileia filho de pai Cabo-verdiano e de mãe Suíça. – Mas o que vem a ser?... Há mais de vinte anos que este homem evaporou do mapa dos meus correspondentes... Bem!... Vamos lá ver o que contem esta merda e, espero por bem que não seja uma cobra indiana…
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