23 de out. de 2009

RUA DE PRAIA SÃO VICENTE

A minha rua da Praia universidade do mundo tem marinheiros e pescadores, tem malandros que furam o dia a dia na sua vida de pobretariados… Peixeiras que cantam com vozes fortes e afinadas anunciando Cavala fresque pela cidade do Mindelo. Ficaram imortalizadas pelo compositor Vasco Martins na sua peça por clarinete e orquestra sinfónica “Quatro vozes na Cidade” que tive o privilegio de escutar em Coimbra, executada pela orquestra do Centro Norte, e, o maestro, no meio do concerto lembro ter feito um parêntesis nada usual: Dizendo que “Quatro vozes na cidade” é pura musica, em todos os cantos do Mundo…
Mas hoje!... Nada disso vou falar: Hoje, vou vos falar da rua da Praia, que num poema, escrevi assim: Rua da Praia! Tão perto do mar, tão longe de Deus!...
– Na Ponta de Praia, em Mindelo S Vicente, existem alcunhas inimagináveis – Costela, esta figura modelo das minhas pinturas que fala a língua de Ulisses com pronúncia de Creta, e viajou em todos os mares e bordéis do mundo. Quando mergulha em cálices de grogue barato, delirando conta as suas façanhas, com a mais profunda nostalgia… Fudinha… é um gajo… por ser meia garrafa em tamanho, ganhou o epíteto… Quando embebeda a sua miséria no grogue de pilha, torna-se num batoteiro compulsivo; e, com o seu baralho de cartas seboso, desafia o diabo para uma partida de sete e meio. Fusco, afirma convicto, que até a belzebu consegue bater na batota… Temos também Caxinha, este bravo rapaz que nunca amua com esta alcunha… em crioulo de S. Vicente: Vagina… Sim meu leitor, leu bem a palavra; por ter uma boca enorme, e os lábios excessivamente grossos, eis o porque do epíteto, do rapaz mais prestável da Ponta de Praia…
Alice! Meu Deus!... A Alice que eu conheço, não tem nada a ver, com “Alice no País das Maravilhas de Louis Carol”!... A Alice que eu conheço, é uma ladra coerciva, capaz de roubar as cuecas furadas dos pescadores com quem dorme, furtar peixe no pelourinho, vender vasos com flores que surripia em jardins públicos … Alice é fogo!... Há dias, esteve com dois Tugas… Conheceu-os, não se sabe como, e nem donde… Foi Gentilmente convidada pelos lusos para beber um copo num botequim… num fechar de olhos, desaparece o celular de um dos Portugas… A vitima, rapidamente pede emprestado ao seu colega o seu telemóvel, liga para o número do aparelho sumido… Alice impassível, faz de conta que tudo está no seu lugar, mas de repente, começa aos saltos, que nem canguru australiano… Caramba! Tinha o celular enfiado na cueca… O telemóvel vibrando, logo tocando… Alice empeça aos pulos e, que nem louca grita: Credo! Cristo!... Que vem a ser isto!!!... – A situação é surrealista, o português, sem pensar, mete uma das mãos na cueca da Alice, e saca o aparelho nos lados da púbis da ladra… Regem-se estrondosas gargalhadas no Café… Pergunto: Será que o celular, foi posteriormente desinfectado?...)
Não posso olvidar, Nhela barbeiro… Não é o barbeiro de Sevilha da famosa ópera italiana, mas é barbeiro na barbearia Benfica, propriedade do Senhor Albertino, um Benfiquista ferrenho, que pendurou numa das parede do local, este aviso aos caloteiros: “FIADO É COISA DO DIABO, AQUI NÃO É O INFERNO”… Nhela, que certamente não conhece Rossini, nem os tenores que cantam Unna a la Volta… é um Barbbieri di qualitá… As lindas crioulas que passam a caminho do mercado de peixe, gostam de sentar na sua velha cadeira giratória… Nhela, com muita arte, retoca as sobrancelhas das damas… Dizem que é um perito na arte de rapar… saberá o diabo!...
Nha Maria?... Nha Maria! - Nha Maria na sua pequena loja tem tudo!... Tem todas as fragrâncias exóticas do arquipélago!... Tem peixe seco do Tarrafal de Monte Trigo, rosmaninho dos cabeços de S. Antão, um bom defumador para afastar os maus espíritos, arruda contra a diarreia, grogue da melhor cana, bálsamo consolador das nossas dificuldades, palavras do saudoso Manuel de Novas, poeta que imortalizou Ponta de Praia numa morna em homenagem a Escacareques, boémio que vi beber na minha juventude baldes de aguardente e, quando fusco, agarrava o traseiro das senhoras dos colonos portugueses… Ficava todo contente ao ser preso pela policia colonial, porque na cadeia, dizia ele, ao menos havia Cathupa, para preso comer…
O bar Boaventura?... Obviamente que não posso esquecer um local com este nome. Esta Boaventura que tanta falta faz aos Pobretariados da Ponta de Praia e, … Bem aventurados os filhos da… Bem aventuradas as rameiras na esquina do Boca de Tubarão, bem-aventuradas as crianças analfabetas, os vagabundos que dormem na cacimba secular nos botes decrépitos e fétidos da Praia de Bote… a eles pertence, o reino da miséria … Bem aventurados aqueles que conheci, e já foram desta para a melhor: Toi Boca, Kapaka, Adriano Charão… e, o episódio bizarro destes três mosqueteiros: Anos atrás entraram na igreja paroquial… Bêbados, interromperam a missa e, dirigindo-se ao padre, perguntaram: “Adé Nho Padre!… O senhor está falando com Deus?... Olha!... Diga-lhe, que ponha o pé de volta, ao nosso companheiro Néné, que foi atropelado por um camião...
- Na igreja paroquial, naquele domingo, foi o diabo! Armou-se um banzé, veio a bófia, e os mosqueteiros foram presos, e espancados brutalmente pela polícia colonial. Graças ao piedoso cura que foi exigir a liberdade dos rapazes, foram soltos horas depois, mas contaram-me, que naquele dia, ao saírem do xelindró, tinham as costas, mais mole do que a barriga, de tanto comer paulada dos agentes...
Termino esta pequena navegação pela Ponta de Praia, enviando Mantenha a dona Djina peixeira, a Fernanda, com os seus enormes olhos de amêndoa, ao “Homem” com o seu olho furado a Luís de Camões, ao Frank Dina, ao ILDO Tinta, que inspirou-me na escrita da novela “Ptolomeu Rodrigues e a sua Viagem de Circum-navegação,” a dona Custodia do bar Carinhoso, Ministra dos assuntos dos pobres, e alimentou durante anos sem fim, todos os párias e loucos desta cidade. Aonde quer que estejam, na glória ou no inferno: Nho Damata, homem sem papas na língua, Rola Cueca, e Paizim, os velhos marinheiros que recusaram navegar com motor de popa e foram os últimos navegadores a vela da Ponta de Praia. Nho Rei o corajoso, que desafiou as autoridades coloniais e foi deportado para ilha do Sal por ter dado uma tareia num capitão dos portos déspota… Com um outro deportado, lograram regressar a São Vicente num bote a remos, numa aventura digna de Ulisses…
Na minha rua da Praia, tão perto do mar, tão longe de Deus, um abraço solidário e fraternal, a todos aqueles que há séculos sem fim, esperam em vão, promessas.

Nenhum comentário: