
- Depois de algumas paragens nas ruas do Mindelo para falar com pessoas conhecidas retomo o meu destino subindo pela rua que vai desembocar na Praça Nova subitamente vem ao meu encontro… mais rápido que uma bala de pistola o louco mais chato da cidade. É o chanfrado Girinoia que, num Italiano com sotaque Siciliano olhos esbugalhados de demente; fedendo a urina, pleno de feridas nos braços e nas pernas iguais as sarnas dos cães vagabundos que pululam nesta cidade… remata: “Papá! … cinquenta escudi per prendere la collazzione! …” – Porra!!!!.. - “Ma… Girinoia… Per favore… no romppe i collionne… – Francamente! Repugna-me o aspecto andrajoso do homem também seu cheiro nauseabundo mas corajosamente retenho o ar e, retirando rapidamente uma moeda de cinquenta escudos da algibeira coloco-a cuidadosamente na palma da mão suja do marado. Resmungando coisas sem pé nem cabeça agradecendo de forma brusca sai pela rua a baixo em altos solilóquios…
– Será que a loucura é um dom, que Deus, deu a essa gente?... Será que os loucos são anjos que andam aqui na terra disfarçados de párias?...
– Merda!... Para com esta ponderação António!... Tu és ateu não acreditas em histórias da carochinha!
- Na pomposa casa colonial construída nos fins do século 19 pelos britânicos onde ficam os correios entro no longo corredor adentro cheirando a detergente dirijo-me directamente ao balcão dos selos para cumprimentar Maria dos Sorrisos mulata linda de morrer que por várias vezes tentei engatar com conversa fiada e poemas de Pablo Neruda enviados via Internet… Mas porra!... A gaja não vai na conversa! A “safada” é mesmo dura de roer. – “ Olá Maria! Tudo bem contigo? – Olhando profundamente nos meus olhos com os seus enormes olhos verdes feito esmeraldas ela sorri e é como se um enorme sol nascesse de repente no meu coração desejoso de aventuras com ela. Abrindo a bela boca com uns lábios para beijar e morrer, com um sorriso único ela exibe uns impecáveis dentes brancos, tão brancos, como as nuvens de Outubro; de seguida graceja: “António meu malandro!... Será que andas zelando com esmero pelo bem-estar das tuas namoradas?...” – “Bo e prigoso! Moço! …” – Diz a flor em crioulo e eu, dando uma de doido finjo não escutar as irónicas palavras desta musa que desejo dias há levar para a cama… Sem jeito saco um molho de chaves das calça de kaky americana despego-me dela simulando beijos no ar e, com o coração a bater de amor dirijo-me para um outro corredor onde repousam as velhas caixas postais dos tempos de Caniquinha. Mecânicamente vou ao receptáculo numero 86 velha caixa postal da nossa família há mais de meio século e, introduzindo a minúscula chave na fechadura abro a portinhola; insiro a minha mão esquerda no vazio… tacteando as cegas apercebo que um vento quente que sopra vindo de algures faz com que os pelos do meu braço electrificados se arrepiem… Meu corpo estremece, mas continuo tacteando dentro da caixa até identificar alguns papeis e envelopes que retiro e começo a ler um por um. Entre eles, um talão todo machucado e sujo que desperta a minha curiosidade. De seguida, leio e… releio-o… – “Carta registada e embrulho proveniente da Índia para o senhor António Pereira, tem a pagar 50 escudos de selo postal...
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